Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

O megalitismo do planalto da Nave

 

Até ao presente momento, os mais antigos vestígios arqueológicos da presença do Homem no concelho de Moimenta da Beira remontam ao V.º milénio antes de Cristo.

Comprovando esta ocupação pré-histórica, são diversos os vestígios datáveis do Período Neolítico encontrados no planalto da Nave, apesar da maioria se perder através da decomposição normal, da devastação da Natureza e dos estragos voluntários ou acidentes causados pelo Homem.

Trata-se de túmulos, com características monumentais, conhecidos localmente por orcas, dólmenes ou antas. Este tipo de arquitectura e técnicas de construção designa-se por megalitismo.

À semelhança de outros pontos do território nacional, o planalto da Nave constitui um vasto e rico espaço de progressiva necropolização e monumentalização.

Pode-se imaginar toda esta vasta área como um local de deambulação periódica de pequenas comunidades que perpetuaram os seus antepassados através da edificação destes grandiosos túmulos. Estas sociedades construtoras eram constituídas por pastores que sobreviviam sobretudo do pastoreio, caça, pesca, recolecção e alguma agricultura. Abrigavam-se entre as rochas ou construíam pequenas estruturas de madeira. Ainda não dominavam a técnica do uso dos metais, fabricando os seus instrumentos em pedra, osso ou madeira. Do ponto de vista social, seriam representadas por um chefe onde respeitavam-se os mais velhos.

Estes túmulos são constituídos por grandes pedras aproveitadas ou afeiçoadas, colocadas na vertical. A sua disposição definia um espaço de contorno circular, subcircular ou poligonal, composto por sete ou nove esteios (monólitos) sobrepostos e coberto por uma grande laje disposta na horizontal.

Este espaço (câmara funerária), não falando dos completamente fechados, poderia ter apenas uma entrada, normalmente virada a Nascente, ou um corredor de acesso, de comprimento variável, também coberto com lajes na horizontal.

Na maior parte dos casos, tal estrutura não findava junto aos primeiros esteios do corredor, mas prolongava-se para além deste, definindo um novo espaço de acesso, a descoberto, ao interior da sepultura – corredor intratumular e/ou átrio.

A câmara e o corredor eram ainda cobertas por um montículo artificial de pedras (cairns) e/ou terra (tumulus), dando maior consistência e monumentalidade ao túmulo.

Tal elevação bem visível na paisagem, de diversas dimensões, assumia um contorno subcircular ou ovalado, assemelhando-se à forma mamilar, daí a designação popular de mamoa. Terá funcionado como rampa para a difícil tarefa de transporte e disposição das pedras de suporte e cobertura.

Foi considerável a mão-de-obra envolvida na sua construção. A escavação de valas e a extracção, o transporte e a instalação das pedras só foram possíveis com a cooperação entre comunidades.

No interior destas sepulturas eram depostos os cadáveres e diversos objectos pessoais, dos quais nos resta uma grande variedade de artefactos (machados de pedra polida, lâminas, pontas de seta, objectos de adorno, etc.).

O acto de selar para sempre estes túmulos era igualmente acompanhado por práticas rituais, através de fogueiras no local de acesso ao interior do sepulcro.

A diversidade destes monumentos leva-nos a conceder a cada um deles uma personalidade própria. Para além de sepulturas de inumação, foram também locais de culto e de união entre as populações.

 

José Carlos (arqueólogo)

 

 

publicado por naveserra às 14:33

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